Levantando o véu da invisibilidade feminina por Larissa Sanchez

Não é incomum ser ou conhecer mulheres que vivem em algum nível de frustração consciente ou inconsciente por não conhecerem seus próprios corpos e desejos sexuais. A infelicidade experienciada pelo feminino desde os primórdios em relação a falta de autoconhecimento sensorial e corpóreo, é legitima e tem um porquê.

Para poder evidenciar algumas questões que influenciam diretamente a falta de conhecimento do próprio corpo e sexualidade até os dias atuais, se faz necessário que eu exponha 2 grandes pilares da invisibilidade histórica da mulher e de seus prazeres no decorrer dos séculos. Desde a formação de inúmeras civilizações, as mulheres e seus corpos foram submetidos a repressões sociais e a invisibilização do subjetivo através da concepção machista de que mulheres tinham a função principal da reprodução e da existência para o deleite do homem.

Essa ideia de que a mulher tinha apenas essas funções bases, existe desde antes do humano ter sua subjetividade e foi reforçada no decorrer dos séculos mesmo depois do desenvolvimento da subjetividade do ser. Em um percurso geral da história, podemos analisar que rapidamente métodos de suprimir a  mulher, para mantê-la na posição da submissão e da ignorância propriamente dita foram criados. Desde a ideia coletiva cristã dos primeiros séculos, até a medicalização dos tempos atuais.

É interessante observar que por mais que o feminino tenha ganho com o tempo, espaço e direitos na sociedade, o resquício da repressão história do subjetivo, não só acompanhou a sociedade de maneira velada (nem sempre), mas também se tornou uma crença intrínseca e inconsciente em grande parte das próprias mulheres.

Crenças de que “Não sentir prazer é normal”, que “Não chegar ao orgasmo com o companheire é ok, de que “Não se tocar porque é feio” ou até mesmo que “Ter inúmeros parceires é sinal de perversão”, são inteiramente advindas de um contexto histórico social reforçado pelo masculino que não tem interesse no seu bem-estar, mas sim no que o corpo feminino pode oferecer a ele, sendo material ou não.

É importante ressaltar aqui que estou falando do feminino e não de um sexo biológico. Mulheres cis e incongruentes de gênero se esbarram em pressões sexuais e sociais comumente iguais inúmeras vezes e através de diversas experiências de vida embebidas na pressão do patriarcado. A fetichização, a falta do orgasmo, da sensação de prazer verdadeira no ato sexual, o conhecimento de si mesma, a descoberta dos pontos de prazer e principalmente das preferencias, são alguns dos principais denominadores comuns.

Se você achava que estava sozinha nesse barco, devo te contar que você está junta nesse navio de mulheres que passam pela mesma situação. Pesquisas apontam que mulheres se sentem menos à vontade para falar de sexo em relação aos homens, que mulheres héteros tem maior medo de desapontar o parceiro na relação sexual, que possuem menor qualidade de vida sexual em comparação com mulheres bissexuais, lésbicas e até mesmo em relação aos homens; que mulheres cis temem não terem filhos até os 40 anos e que mulheres no geral não se sentiram confortáveis e nem bem tratadas ao perder a virgindade.

Vejo que esses resultados de pesquisas sobre a vida sexual da mulher, com um olhar histórico da situação, já eram esperados. Porém, observo que a grande diferença histórico social que vem ocorrendo, é que a maioria das mulheres de hoje em dia, de fato, se atentam sobre não possuírem conhecimento do próprio do prazer em algum momento da vida, e se preocupam, a partir da noção da falta de autoconhecimento corpóreo sexual, em começar um movimento pela busca subjetiva, mas ao mesmo tempo coletiva, do verdadeiro prazer e conhecimento de si.

Em suma, sinto que é necessário reforçar que o feminino caminha cada dia mais para o maior e mais pleno conhecimento de si mesmo e quebra de correntes históricas sociais. Não é tarde para esse movimento, nunca será tarde para se tocar, se descobrir e se amar.

 

Larissa Sanchez Dequirmandjianm - estudante de psicologia, pesquisadora, mulher trans e palestrante.